A história da Boa Vista, pela conversa dos moradores mais velhos, começa de forma um pouco confusa, “aqui não é Mata Galinha, é Boa Vista”, faz questão de ressaltar o funileiro mais conhecido da comunidade.
A pequena comunidade da Boa Vista, localizada na área centro-sul de Fortaleza, começou seus dias sendo alvo de algumas brincadeiras. Desde os primeiros habitantes, os moradores tiveram que conviver com denominação dada pela prefeitura: Mata Galinha. Entre um nome e outro a confusão é simples de ser entendida: tudo começou quando um morador certo dia tentava atravessar o rio Cóco levando umas galinhas e, sem querer, acabou afogando-as na travessia do rio. Um acontecimento engraçado, mas que em nada ajudou na aceitação dessa identificação pelos moradores.
Com uma pequena oficina na rua da Associação (como os próprios moradores se referem à rua José Messias Matos), Sr. Toinho foi um dos primeiros moradores a chegar na Boa Vista. “Na época não tinha nada, tudo que tem aqui (hoje) foi luta da comunidade”, exclama movimentando as mãos. A maioria dos moradores mais antigos da Boa Vista chegaram às terras que margeavam o rio Cóco abandonando as moradias onde residiam no Alto da Balança (atualmente Aerolândia).
Na época, por volta da década de 1960, como narra Sr. André – morador mais antigo da comunidade, atualmente com 93 anos – o dono da propriedade precisou do terreno e retirou os moradores do local, fazendo com que grande parte viesse a se instalar nas terras onde hoje é a Boa Vista. Os primeiros moradores deparam-se não só com um lugar isolado, mas com a dificuldade de atender algumas necessidades básicas, como encontrar água potável. Mesmo na época o rio Cóco ser limpo, alguns moradores não contavam com a água do Rio para beber, muitos deles tinham que se deslocar até uma propriedade onde hoje é o Castelão para conseguir alguns baldes com água potável. “A gente saia com lata na cabeça pra ir pegar água num poço”, relata dona Rosa, viúva do primeiro comerciante da Boa Vista.
Nesse período, um loteamento foi inaugurado e batizado com o nome Boa Vista, até lá, o nome Mata Galinha ainda fazia a fama e a graça pelo local. A chegada de mais moradores, muitos deles vindos do interior, despertou a preocupação dos mais velhos, mas concretizava a nomenclatura “Boa Vista” entre os novos moradores. Como a comunidade crescia, algumas necessidades eram indispensáveis. “Em plena ditadura, nós nos organizávamos, escondidos, e reinvidicava nossos direitos, foi assim que fizemos a passeata dos candeeiros, exigindo energia”, conta dona Maria de Lourdes, agente de saúde e moradora da Boa Vista.
Ainda na época, alguns terrenos da Boa Vista pertenciam à famílias ricas que utilizavam a área como local de descanso da vida conduzida no centro da capital, uma dessas famílias era do senhor Dias Macedo, hoje nome do bairro vizinho à Boa Vista. Aos poucos, quando a urbanização chegou até o local, o descanso foi abandonado e os terrenos foram doados à Igreja, integrando hoje o Condomínio Espiritual Uirapuru, às margens da Avenida Alberto Craveiro.
Junto com a energia, chegou a primeira bodega. Dois carroceiros já abasteciam com água os moradores, mas, mesmo assim, outros problemas vinham à tona, dentre eles a moradia. Com o aumento populacional, as moradias foram ficando mais próximas ao rio e a comunidade passou a viver uma outra dificuldade, as cheias.
Segundo Sr. Toinho, até então alguns moradores utilizavam o rio para conseguir uma pequena renda, seja pescando peixes para consumo próprio e venda, seja retirando areia do fundo do rio. “Na época do verão os moradores tiravam areia do rio e quando chegava o inverno não tinha cheia. Quando a prefeitura começou a proibir o pessoal de tirar areia do rio, começou os problemas da cheia”, conto Sr. Toinho. Ele completa, “as vidas que o Cóco criou, hoje ele está ceifando”.
Além do problema das cheias, veio também o problema do esgotamento sanitário e, conseqüentemente, a falta de estrutura de saúde. As reinvidicações por um posto de saúde tomaram de conta da comunidade que, por meio da organização, conseguiram não só o posto, mas uma escola estadual, uma delegacia e um centro de assistência social, todos eles construídos em um terreno doado pela Igreja. Mesmo assim, todas as conquistas não foram suficientes para trazer o saneamento básico para a comunidade e as moradias.
Hoje são cerca de cinco mil moradores residindo no bairro da Boa Vista e em mais três conjuntos populares que o próprio líder comunitário faz questão de chamar de “favela”. Mas mesmo diante das dificuldades, Sr. Alberto, presidente da Sociedade de Apoio aos Moradores da Grande Boa Vista e Adjacências faz questão de frisar “sair daqui da Boa Vista só se for para o cemitério”.
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